30 de abr. de 2010

Doação de Órgãos e Mobilização Pessoal

As campanhas para sensibilizar a sociedade em favor da doação de órgãos, apesar do efeito e do aumento nas taxas de doadores e de órgãos transplantados, apenas amenizam a questão das intermináveis filas de espera que os receptores enfrentam por meses, anos ou até o fim da vida. O percentual de morte nas filas de espera ainda é alto, e tempo, neste caso, é realmente crucial.


É interessante perceber, depois do muito que se fala sobre o ato de solidariedade que é a doação, que o pensamento dos cidadãos tem realmente mudado, e a disponibilidade para a doação, nos discursos, cresceu animadoramente. O Calcanhar de Aquiles é justamente o ato de transformar o pensamento em ação, visto que as mobilizações ocorrem em percentual bem mais baixo. Acredito que, em parte, isto acontece porque o desejo de ser doador não é seriamente expressado à família, que é quem autoriza ou não a doação de órgãos. Quantos de nós já asseguramos com nossos parentes que iremos ser, de fato, doadores de órgãos?


Decerto, há muito que se evoluir neste ponto crucial da consciência humana, para que possamos pensar na necessidade (e diga-se aqui, extrema necessidade) do outro, sem que precisemos experienciar em família a angústia de ver um parente ter a chance de viver e ter que esperar um ato de vontade. A evolução da medicina, trazendo chances de prolongar vidas, depende ainda de uma mudança de conceito por parte da sociedade. É complicado alterar padrões de comportamento, quando o ato envolve um momento crítico, de perda, onde os parentes em sofrimento precisam expressar, junto com sua dor, ato de suprema generosidade. Mas é possível, é viável, e cada ato de conscientização pode valer uma vida.


Além dos órgãos que só podem ser doados em caso de morte, existem os órgãos sólidos que podem ser doados em vida, como rim, parte do pulmão, fígado e pâncreas, e também a medula óssea. No Brasil, a legislação permite a doação de órgãos entre cônjuges e parentes até quarto grau. Além desse grau de parentesco é necessário uma autorização judicial. Para a doação de medula óssea, o cidadão doador pode ser cadastrado como doador voluntário, e fazer parte de um sistema que cruza as informações de compatibilidade com os receptores do Estado, e depois de todo o país. O que atrapalha, é que os mitos de perigo de invalidez (que não procede, já que a medula óssea, que se doa, é diferente da medula espinhal) e de dor no ato da doação, deixam as pessoas receosas. A doação de medula óssea, ao contrário do que se pensa, é um dos procedimentos mais simples entre as doações. E é também a única chance de vida de milhares pacientes com leucemia e outras patologias sanguíneas. Fora isto, no caso de haver compatibilidade, (que por sua vez é raríssimo, já que as chances, no registro brasileiro, são de 1 em 100.000) o doador será consultado e tomará, sozinho, a decisão.


Muito mais do que decisões políticas, seja acerca da Fila Única para receptores, ou da Doação Presumida, já tão debatidas, acredito que a doação de órgãos seja uma questão de decisão pessoal. É claro que nos interessa a administração do sistema de transplante, e que torcemos para que as escolhas dos receptores sejam absolutamente justas, mas o ato individual de salvar vidas é louvável em qualquer instância. E cabe a cada um pensar nos critérios pessoais e traduzir a intenção em atitude.