
O Brasil possui o terceiro maior registro de doadores de medula óssea, atrás apenas dos EUA e da Alemanha, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca). Atualmente, 1,4 milhão de pessoas estão cadastradas no Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome) dispostas a ajudar a um paciente que seja compatível. O número é expressivo e representa um crescimento de 99% em um período de nove anos, superando, inclusive, as expectativas do Ministério da Saúde, que esperava ter 920 mil doadores cadastrados até 2011.
Ainda assim, de acordo com o hematologista e membro do Centro Paulista de Oncologia Gustavo Vilela, o número de doadores no país deveria ser muito maior para atender os 980 pacientes que, atualmente, necessitam de transplante de medula óssea.
“É muito difícil encontrar um doador compatível. Cada um de nós possui uma combinação genética única, formada a partir de uma mistura de genes dos nossos pais. Não é fácil achar, no mundo, uma pessoa que tenha uma composição praticamente igual a nossa”, explica Vilela, que afirma, ainda, que a chance de encontrar um doador compatível é maior entre familiares, sobretudo irmãos.
Os dados do Inca comprovam que a incompatibilidade é um dos maiores problemas enfrentados pelos pacientes. Segundo o instituto, a chance de encontrar um doador compatível é, em média, de uma a cada 100 mil e acontece, em 25% dos casos, dentro da própria família.
A MÍDIA COMO ALIADA
Quanto mais doadores estiverem cadastrados no Redome, maiores serão as chances dos pacientes encontrarem pessoas compatíveis para a realização de um transplante de medula óssea.
Na opinião do onco-hematologista Jairo Sobrinho, membro da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale), para que isso aconteça é preciso mais informação. “Muitas pessoas ainda desconhecem como funciona o processo de doação e, pior, acreditam em mitos que existem a respeito desse procedimento médico. Creio que, quando descobrirem como é fácil se cadastrar no Redome e fazer a coleta de medula óssea, as pessoas se mobilizarão mais”, disse o médico.
Nesse processo, a mídia pode ser utilizada como uma forte aliada. Segundo Sobrinho, o governo e, principalmente, as entidades do terceiro setor realizam, constantemente, campanhas sobre o assunto, mas o maior número de cadastramentos no Redome foi registrado em 2000, quando o autor Manoel Carlos tratou do assunto na novela “Laços de Família”, da TV Globo.
Já para o médico Gustavo Vilela, uma das maiores conquistas na área foi o aperfeiçoamento da técnica usada para o transplante de medula óssea, o que contribuiu para o aumento do número de doadores cadastrados. “Cada vez mais, utilizamos um processo de coleta diferente, que se assemelha a uma transfusão de sangue. Ao invés de perfurar o osso da bacia para extrair o líquido da medula óssea, damos ao paciente um remédio que provoca a migração das células-tronco da medula para a corrente sanguínea”, explicou o médico.
No entanto, quando se fala do transplante de medula óssea no Brasil não há apenas motivos para comemorar. Ainda existem muitas carências na área, como por exemplo, a falta de leitos específicos para a realização do procedimento. De acordo com o médico Sobrinho, muitos pacientes ainda deixam de realizar o transplante, mesmo depois de encontrar um doador compatível, porque não encontram leitos disponíveis nos hospitais especializados.
NÃO É SÓ MEDULA
Segundo dados do Ministério da Saúde, o número de doadores de órgãos, em geral, tem crescido no Brasil. Atualmente, oito em cada 1 milhão de pessoas manifestam a vontade de doar seus órgãos após a morte, sendo que os maiores índices estão nos Estados de Santa Catarina, São Paulo e Distrito Federal, respectivamente.
Os números apontam um crescimento de 26% em relação ao início do ano de 2009. Ainda assim, a quantidade de doadores poderia ser muito maior, de acordo com a presidente do Conselho Consultivo da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), Maria Cristina de Castro. “Apenas um quinto das pessoas que poderiam doar órgãos no país se tornam doadoras efetivas. Com esse índice, conseguimos dar conta de cerca de, apenas, 20% dos pacientes que estão em lista de espera para transplante”, afirmou.
Para aumentar o número de doadores no país, o governo brasileiro chegou a aprovar, em 1997, uma lei que instituía a doação presumida de órgãos no país. Ou seja, todos os brasileiros eram considerados doadores após a morte e aqueles que eram contra o procedimento precisavam manifestar essa vontade ao Estado.
A medida, no entanto, gerou polêmica entre a população e chegou a ser considerada abusiva, já que muitas pessoas desconheciam a lei e morriam sem saber que eram doadoras. Como resultado, em aproximadamente um ano a medida foi anulada, o que representou um avanço para a legislação do país, segundo o especialista em direito do Estado Luis Dantas. “A doação presumida violava os principais direitos do cidadão, porque presumia uma atitude, ou seja, tirava o direito da pessoa de decidir sobre o destino do próprio corpo”, afirmou o advogado.